Judith Cortesão
A educação perde Judith Cortesão
Morreu na Suíça, ontem, com prováveis 91 anos, a educadora, ambientalista, médica e cientista Maria Judith Zuzarte Cortesão, que por vários anos atuou na Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg), emprestando seus conhecimentos para a criação do pós-graduação em Educação Ambiental e para os museus da universidade, em especial o Museu Oceanográfico. Judith Cortesão foi professora no mestrado em Educação Ambiental Marinha na Furg. Foi assessora de Política Ambiental (Ministério do Meio Ambiente), representante no Pantanal do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan - Ministério da Cultura), diretora do Centro de Estudos Terra/Homem (Sphan), na Fazenda Pau d'Alho (São Paulo) e representante do Brasil em encontros internacionais relativos à sua principal área de atuação - assuntos do mar - realizados no Canadá, Chile, Japão, Suíça e Quênia. Participou das primeiras expedições brasileiras na Antártica.
Na área médica, desenvolveu pesquisas em neuroendocrinologia. É autora de argumentos para vídeo e cinema e de livros e artigos como Juréia (Editora Index), "Tradição e Cultura dos Povos da Floresta" (in Mata Atlântica, Editora Index) e "Leis do Mar para a Comunidade", no prelo. Dedicada à diversidade e às ciências, Maria Judith Zuzarte Cortesão contribuiu para o Brasil de forma transdisciplinar. Considerava-se brasileira, mas nasceu na cidade do Porto, em Portugal. A dedicação à Furg e às coisas do mar renderam-lhe o título de cidadã honorária do Rio Grande (RS).  Aprendeu 14 línguas, dentre elas, árabe, esperanto e chinês. Era formada em Medicina, Antropologia, Letras, Biblioteconomia, Meteorologia, Climatologia e Biologia, com cursos de especialização em Neuroendocrinologia, Genética e Reprodução Humana.
Mesmo trabalhando em diversas áreas, sempre teve a Ecologia como principal foco de interesse e atuação. Foi uma das criadoras do programa Globo Ecologia e prestou consultoria a ONGs de renome na área ambiental como SOS Mata Atlântica e Instituto Acqua. Participou de duas expedições brasileiras à Antártida, em 1982 e 1983, e colaborou com a organização dos Museus Oceanográfico e Antártico, no Rio Grande do Sul. Lecionou em 16 universidades, inclusive na Sorbonne (França), e na Open University (Grã-Bretanha). Escreveu 16 livros, entre eles Pantanal, Pantanais e Juréia. Participou da elaboração de filmes como Taim, sobre a reserva gaúcha. Com a TV Globo, idealizou dez filmes da Série Viva o mar, viva o povo que vive do mar. Acompanhou missões da Unesco em Portugal e no Brasil. Na Furg, foi professora do único curso de pós-graduação em Educação Ambiental Marinha do Brasil. Era viúva do literato português Agostinho da Silva, com quem teve seis de seus oito filhos – dois adotivos.
Filha do renomado historiador Jaime Cortesão, Maria Judith Zuzarte Cortesão, dizia que "servir é o mais importante; em seguida vem o compadecimento, depois o maravilhar-se com a natureza e só então o saber". Em Rio Grande, a educadora prestou consultoria aos Museus Oceanográfico e Antártico, além do Eco-Museu da Ilha da Pólvora. Foi membro do setor de Educação Ambiental do Programa Mar de Dentro, que busca recuperar a Lagoa dos Patos e seus ecossistemas. E instigou a criação do Programa Asas Polares, para proteger áreas de pouso e reprodução das aves marinhas. Fazendo parte do Conselho Interministerial de Recursos do Mar, representou o Brasil em encontros internacionais, no Chile, Japão e na Suíça. Apaixonada por pesquisa, Judith estudou temas tão diversos como poesia canadense ou a mulher caiçara como agente de transformação.
Pesar
 
Na Furg, a notícia da morte da professora Judith Cortesão foi recebida com grande pesar. O reitor João Carlos Cousin e o coordenador da Pós-graduação em Educação Ambiental, Humberto Calloni, consideraram uma grande perda para todo o mundo científico, cultural e para todos os que se preocupam com o meio ambiente. Para o reitor, a perda de uma nobre pessoa e brilhante cientista e educadora consterna a todos que a conheceram e tiveram a oportunidade de partilhar a sua sabedoria. A Furg já havia externado o seu reconhecimento à professora Judith, criando a “Sala Verde Judith Cortesão”, que abriga hoje um vasto acervo bibliográfico acumulado ao longo dos anos pela professora.